
Reflexões a partir de um caso de enxaqueca silenciosa
Acaba de ser publicado na revista Clinical Medicine & Research um caso clínico da minha consulta privada dedicada ao diagnóstico. Do ponto de vista formal, descreve uma entidade pouco reconhecida, a enxaqueca acefálgica, ou enxaqueca com aura sem dor de cabeça.
Mas este caso vai mais longe.
Ilustra de forma clara o que pode acontecer quando há tempo para ouvir, atenção ao detalhe clínico e espaço para que o raciocínio médico se desenvolva de forma progressiva.
Por isso, pareceu-me natural que fosse também o ponto de partida deste novo blog dedicado a Pensar Medicina.
Quando esta doente me procurou, tinha sintomas há cerca de dois anos.
Durante esse tempo, viveu com episódios recorrentes e incapacitantes de fadiga profunda, náuseas e dificuldade cognitiva. Cada episódio prolongava-se por dias. Entre episódios, encontrava-se completamente bem, até que o quadro regressava, sempre com o mesmo padrão.
Ao longo desses dois anos, foi observada por vários médicos e submetida a uma investigação extensa. Testes laboratoriais, exames de imagem, endoscopias. Os resultados eram, de forma consistente, normais. Não sugeriam qualquer diagnóstico.
Em paralelo aos sintomas, desenvolvia-se, compreensivelmente, algo mais. Frustração, insegurança e uma dúvida progressiva sobre a legitimidade dos próprios sintomas. A sensação de que, se os exames não mostravam nada, talvez o problema não fosse verdadeiramente médico.
Este é um ponto crítico, que vejo frequentemente em quem me procura nesta consulta. Quando os exames são normais, o sofrimento não desaparece. O que frequentemente se perde é a confiança.
O ponto de viragem neste caso não resultou de mais um exame.
Resultou de tempo dedicado à reconstrução cuidada da história clínica. Da atenção ao padrão temporal e à repetição quase estereotipada dos episódios. Da análise crítica da resposta a tratamentos prévios, incluindo daquilo que não tinha funcionado.
Um pormenor, aparentemente secundário, revelou-se decisivo. As náuseas melhoravam com ondansetrom, mas não com metoclopramida. Esse dado, integrado no contexto global do quadro clínico, abriu caminho a uma hipótese diferente. Uma hipótese assente no espectro da enxaqueca, apesar da ausência de cefaleia.
A partir daí, e após discussão cuidada com a doente sobre o que esperar, decidimos avançar com uma prova terapêutica. A resposta foi clara. Episódios que habitualmente duravam vários dias passaram a resolver-se em poucas horas. O diagnóstico tornou-se evidente, não apenas para o médico, mas também para a própria doente.
E como tantas vezes acontece com estes casos, o que acontece depois do diagnóstico não foi menos marcante.
Com a compreensão do mecanismo subjacente, informada sobre a doença e o que procurar, a doente passou a reconhecer sintomas de aura que sempre estiveram presentes, mas nunca tinham sido identificados como tal. Passou também a reconhecer melhor os factores desencadeantes e a antecipar os episódios. Por outras palavras, recuperou o controlo sobre a sua vida do dia-a-dia.
É aqui que o acto diagnóstico revela o seu verdadeiro impacto.
O diagnóstico não é apenas uma designação técnica, um mero enquadramento explicativo, que reduzido ao número de palavras que possa ter o nome da doença. O diagnóstico é também um processo, que, desenvolvendo-se com tempo e racionalidade, permite compreender o que está a acontecer, reduzir a incerteza e melhorar, de forma concreta, a qualidade de vida, mesmo após anos de percurso sem respostas. Não é algo apenas feito pelo médico, mas que é vivido pelo doente (e pelo médico!).
Este caso reflecte a forma de como vejo a Medicina e me esforço diariamente para a cumprir. Como um desígnio.
Uma prática centrada no raciocínio clínico, na integração cuidada da informação disponível e na escuta atenta de quem procura ajuda. Uma prática que encara o diagnóstico como um processo construído ao longo do tempo, e não como um momento isolado. Uma prática que reconhece que ouvir não é um gesto acessório, mas parte integrante do trabalho médico.
Num sistema de saúde cada vez mais rápido e fragmentado, os doentes com sintomas persistentes e sem explicação clara são frequentemente aqueles que ficam para trás. São, paradoxalmente, os que mais beneficiam de uma abordagem clínica cuidada, estruturada e reflexiva.
Este texto não ficaria completo sem uma palavra de agradecimento à doente na origem deste caso. Pela confiança depositada em mim após um percurso longo e difícil, pela disponibilidade para partilhar a sua história, e pela forma como participou no próprio processo de diagnóstico. Casos como este lembram-nos que o diagnóstico é sempre um trabalho partilhado, construído da confiança mútua e do envolvimento activo, de quem pergunta e de quem responde.
Este espaço, Pensar a Medicina, ganha assim o seu propósito. Reflectir sobre casos, sobre incerteza, e sobre o que significa praticar Medicina.
O trabalho continua.
Referência
Oliveira DG. Acephalgic Migraine Presenting as Episodic Fatigue and Nausea: A Case Report. Clinical Medicine & Research. 2025;23(4):165–171. doi:10.3121/cmr.2025.2030

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